Ao lado de Karl Marx e Jesus Cristo

Olá galera! Olha ai mais uma matéria de gaveta!

Fiz essa matéria, um perfil, no terceiro ano de faculdade… é, acho que foi isso. A encontrei depois de vasculhar algumas coisas antigas, e como o blog tá paradinho, resolvi publicar. Espero que gostem!

Boa leitura! Até a próxima!

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Em uma fria tarde de sexta-feira, depois de cumprir todas as normas internas de cadastro chego à biblioteca da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e peço que o simpático senhor da recepção me autorize a aguardar na área de convivência da mesma. Quando explico o motivo de minha espera, percebo que ele pára alguns segundos e processa algo em sua memória, enquanto passa o cartão magnético que irá liberar minha entrada me olha e diz com serenidade:

— Ele tem uma voz muito bonita, canta muito bem e gosta de cantar, você vai sair com os ouvidos satisfeitos moça!

Agradeço pela gentileza e percebo que esse comentário só vem a confirmar minhas impressões prévias. Depois de aguardar um pouco na ante-sala da biblioteca, olho no relógio e vejo que o horário marcado para a entrevista se aproxima. Levanto e corro os olhos pelo local em busca do simpático senhor, contudo, uma jovem e também simpática funcionária estava em seu lugar.

Subo pela escada os três andares até o local combinado, ao chegar no “Espaço Bohemia” da FGV vejo que meu entrevistado está conversando com quatro garotas, provavelmente suas alunas. Enquanto aguardo meu horário, tomando um saboroso suco de laranja com acerola, observo que sua grave voz ecoa no salão. De fala devagar, pausada, aparenta ser cordial e atencioso com suas interlocutoras.

Percebo que um colega de profissão prepara seus assessórios para também trocar algumas palavras com meu próximo entrevistado. Um senhor baixo e calvo se aproxima e questiona:

— Moça, você também vai falar com o Senador?

Respondo que sim e o senhor esclarece que irá tratar de “um assunto empresarial”. Depois dessa pergunta percebo que os minutos com o Senador são disputadíssimos. Nossa conversa já está 20 minutos atrasada, então, ele acena e pede que eu vá até ele.

Chego à mesa onde ele e as quatro garotas discutiam até minutos antes sobre a economia na então Itália fascista, conforme meus ouvidos atrevidos puderam captar. Me apresento, ele se levanta, é um homem alto, os cabelos que ainda restam são brancos, bem vestido, porém simples: jeans escuro combinado com a camisa cinza. Recebo um firme aperto de mão e ele diz:

— Ah… Boa tarde… Bem… você aguarde mais uns… minutos e falamos…

Fala mansa, idéias firmes

O paulistano Eduardo Matarazzo Suplicy é um homem de fala mansa, tem seu próprio ritmo, de tempos em tempos durante a conversa faz uma pausa, reflete, ajeita dos óculos e aros finos e só então retoma a conversa, exatamente de onde parou.

Administrador, economista e professor, Suplicy é um geminiano idealista, romântico, perseverante e por vezes ingênuo. Iniciou sua trajetória política em 1978, sendo eleito deputado estadual (por São Paulo) pelo extinto MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Em 1982 foi eleito deputado federal pelo recém-criado PT (Partido dos Trabalhadores) ao qual é filiado até os dias atuais. E em 1991 tornou-se Senador, posto que ainda lhe pertence.

Iniciamos a conversa falando sobre a tradicional família a qual pertence, os Matarazzo. Suplicy conta com riqueza de detalhes cada passo de cada geração de sua família, que foi uma das mais poderosas da América Latina na segunda metade do século passado. Após essa verdadeira aula de história fico intrigada em saber como um jovem que cresceu em uma família tão abastada foi parar em um partido de oposição ao regime militar, a resposta aproxima Jesus Cristo de Karl Marx.

— Ahh… Como meus pais tinham uma formação católica, me transmitiram valores cristãos de fraternidade…, de verdade e da justiça. Desde menino… aprendi que esses valores eram importantes… e que eu precisava cuidar de descobrir as coisas, de realizar justiça nesse país.

Essa percepção sobre sua atividade política o tornou um homem respeitado e admirado pelo povo, que o enxerga com um homem íntegro e honrado. Suplicy explica essa admiração de uma maneira muito simplista:

— Acho que… o povo acredita nas minhas idéias e sabem que… tento fazer política pensado naqueles que… votaram em mim.

Blowin’ in the wind

As preferências musicais de Suplicy revelam um pouco sobre sua postura e ideologia política. É um fã assumido do cantor e compositor estadunidense Bob Dylan, que assim como Suplicy exterioriza seus protestos e anseios pela liberdade. A diferença reside no canal de manifestação, enquanto Dylan lança mão da música, Suplicy escolheu a política. Como o senhor da portaria da biblioteca já havia antecipado, Suplicy é realmente um homem que nutre apreço pela música, tanto que em 1998 cantou “O Cio da Terra”, de Milton Nascimento e Chico Buarque, no coral do Senado. A admiração do Senador pelo compositor estadunidense não é segredo, já que no site You Tube circula um vídeo que mostra Suplicy deixando o senado cantarolando músicas do ídolo.

A obstinação: Renda Básica de Cidadania

A conversa continua e agora se inclina para as realizações políticas de Suplicy. Percebo que o homem sentado à minha frente fala com carinho sobre sua função política, questionado sobre o seu papel como Senador, fala com um discurso muito semelhante a tantos outros que ouvimos, contudo, convence. E convence tanto que é uma das poucas figuras políticas que é respeitado pelos adeptos de distintas correntes partidárias.

— Sou um homem realizado… porque consegui fazer coisas pelo meu país e pelo meu povo…, e acredito que a Renda Básica de Cidadania poderá contribuir…para o avanço do Brasil.

Ah, demorou, mas ela apareceu. A Renda Básica de Cidadania é a “menina dos olhos” do Senador. Este é um programa de transferência de renda que Suplicy defende desde o início de seu primeiro mandato. A Lei foi sancionada em 08 de janeiro de 2004 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que resta é ser implementada. Suplicy trata desse tema como um de seus maiores orgulhos.

— Veja bem… acredito no direito de igualdade…e esse programa garante que…todos os cidadãos possam partilhar a riqueza da nação.

Suplicy continua a explicar sobre o projeto enquanto assina um exemplar de seu livro intitulado “Renda Básica de Cidadania: a saída é pela porta”, para me entregar. Neste livro o Suplicy discorre sobre sua trajetória política junto ao PT e exemplifica como o projeto que defende apresenta vantagens em relação aos demais programas de transferência de renda. Em uma das passagens do livro Suplicy deixa clara sua convicção da eficácia do programa: “A renda básica de cidadania é o resultado da reflexão de economistas, filósofos, cientistas sociais do mais variado espectro, que chegaram à conclusão de que a melhor maneira de se contribuir para os objetivos de erradicação da pobreza absoluta, de melhoria da distribuição da renda, de garantia de real dignidade e liberdade às pessoas, é prover a todos o direito inalienável de participar da riqueza da Nação através de uma renda básica que, na medida do possível, seja suficiente para atender às suas necessidades vitais.”

A essa altura da entrevista percebo que um rapaz, provavelmente um de seus assessores, me fita com aquele olhar de quem diz: “Vamos logo mocinha, não temos o dia todo.” Percebo uma troca de olhares entre o rapaz e Suplicy, que meio sem jeito pede desculpas por ter que finalizar o papo. Agradeço pela conversa e vou-me embora com a Renda Básica de Cidadania embaixo do braço e uma recomendação:

— Você é jovem… tenha esperança no seu país… lute por ele!

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The answer, my friend, is blowin’ in the wind

Blowing In The Wind


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